Vadico - 100 anos
Erasmino Gogliano e Maria Adelaide de Almeida, pais de Vadico (que nasceu Osvaldo de Almeida Gogliano, no dia 24 de junho de 1910) eram imigrantes italianos, como tantos outros que foram morar no bairro do Brás, São Paulo. O casal teve quatro filhos, músicos: Carlos, flautista e saxofonista; Ruth, piano e harmonia; Dirceu, formado pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e ele, Vadico, que desde menino dedicou-se ao piano, incentivado pela irmã. Aos 18 anos, venceu um concurso de música popular com a marcha "Isso mesmo é que eu quero". Por conta do entusiasmo trocou o ofício de datilógrafo pelo de músico profissional, quando foi contratado para tocar num hotel, em Poços de Caldas (MG).
"Eu me sentia como se tivesse descoberto a América! Larguei o tal emprego, e virei profissional, profissional ruim, tocando mal, quase de ouvido", comentou humildemente o pianista.
Seu samba 'Deixei de ser otário' datado de 1929, foi incluído no filme 'Acabaram-se os otários', dirigido por Luís de Barros - sua primeira composição gravada (Odeon), por Genésio Arruda. Nessa época, com apenas 19 anos, fazia trabalhos de orquestração e após mandar uma outra composição sua 'Arranjei Outra' (com Dan Malio Carneiro) para o Rio de Janeiro e esta ser gravada por Francisco Alves, resolveu mudar-se, no ano seguinte (1930) para a capital onde o mercado de trabalho era melhor. Ao chegar, apresentou suas músicas ao também paulista e maestro, Eduardo Souto, que conseguiu que uma delas, o samba "Silêncio", fosse gravada por Luís Barbosa e Vitório Lattari (Odeon). A mesma obra foi incluída na revista "Bibelô", de De Chocolat e ainda vencedora de concurso realizado pelo "Correio da Manhã" - o maior e principal jornal da capital daquela época. Ainda nesse mesmo ano, trabalhou como pianista no cabaré "A caverna", do Cassino Beira Mar.
Dois anos depois, o mesmo Eduardo Souto lhe apresenta Noel Rosa, no estúdio da Odeon. "A primeira vez que encontrei Noel Rosa foi em 1932. Não posso lembrar aqui o dia e o mês, mas recordo que o nosso encontro se deu nos estúdios da Odeon, onde eu trabalhava numa gravação com Chico Alves. Num dos intervalos do trabalho, tendo Eduardo Souto a meu lado, toquei ao piano uma das minhas composições com a qual o velho Souto ficara fascinado. Pouco depois de terminada a gravação, eis que surge o maestro acompanhado de Noel Rosa, que eu conhecia apenas de nome. Após as apresentações, Souto pediu-me que tocasse novamente o samba que tanto o agradara. Percebendo o entusiasmo de Noel pela minha composição, ali mesmo sugeriu que trabalhássemos juntos. Concordamos, eu e Noel, imediatamente. Dias depois minha música recebia o título de "Feitio de Oração" e seria gravada no mesmo mês pelos cantores Francisco Alves e Castro Barbosa. E com esse samba demos início a nossa parceria", relatou o autor.
A segunda composição da dupla foi o samba "Feitiço da Vila", lançado em 1934 por João Petra de Barros, também pela gravadora Odeon. Na sequência vieram: "Provei", "Quantos beijos", "Só pode ser você", "Conversa de botequim", "Cem mil-réis", "Tarzan, o filho do alfaiate", "Pra que mentir" e a "Marcha do dragão" composta para fins publicitários. Nestas composições, fez inicialmente a melodia e Noel colocou a letra. No caso de "Mais um samba popular", compôs a melodia, escreveu o refrão e colocou o título. Noel modificou o refrão e escreveu os versos da segunda parte. Ainda em 1934, foi contratado pelo clarinetista Luís Americano para atuar na Boite Lido, passando pouco depois a substituir o músico na chefia da orquestra. Gravou, ainda nesse período, com sua orquestra, na Columbia, as músicas "Maestro marmelada" e "Is it all right?".
Em 1935, a valsa "Natália" (instrumental) foi gravada com solo de saxofone de Luis Americano e ele próprio, Vadico, ao piano, além do samba "Conversa de botequim", gravado pelo próprio Noel Rosa.
Em 1936, outros dois sambas em parceria com Noel Rosa foram gravados também por Noel, dessa vez em dueto com Marília Batista, "Provei" e "Cem mil réis".
Em 1937, teve o samba "Seja o que Deus quiser", parceria com Mário Morais gravado por Nuno Roland (Odeon). Nesse ano, Vadico sofre uma perda inestimável - a morte prematura de seu parceiro Noel Rosa.
Em 1938, atuou pelo período de quatro meses no Cassino Tênis Clube de Petrópolis. Nesse ano, Sílvio Caldas gravou pela gravadora Victor o samba "Pra que mentir", parceria com Noel Rosa.
Em 1939, dois anos após o episódio com Noel, ainda muito triste, aceita o convite da Orquestra Romeu Silva para viajar ao Estados Unidos da América, para atuar no pavilhão brasileiro da Feira Mundial de New York - que estrearia em junho, ficando por lá até novembro. Nesse período (em 26 de outubro) participou das transmissões inéditas, em ondas curtas, para o Brasil, na National Broadcasting Corporation, do show de Carmem Miranda com o Bando da Lua, que lá fora passou a se chamar The Moon Gang - com Garoto substituindo Ivo Astolfi no banjo. Retornou ao Brasil com Romeu Silva, passando a se apresentar, com a orquestra, na Feira de Amostras do Rio de Janeiro.
Voltou a New York em abril de 1940 para a reabertura da Feira Mundial. Com o encerramento do evento, em outubro daquele ano, foi para Hollywood, onde passou a trabalhar na gravação das músicas do filme 'Uma noite no Rio' (That Nightin Rio, de Irving Cummings), com Carmem Miranda, onde aparecia tocando instrumento de percussão, quando anteriormente já havia gravado a parte de piano.
No ano seguinte, a pedido da Universal Pictures, compôs para um filme o samba Ioiô, que teve letra de Nestor Amaral. Continuou como pianista de Carmem Miranda e do Bando da Lua, fazendo também várias orquestrações para filmes em que estes atuavam, como Weekend in Havana (Aconteceu em Havana, direção de Walter Lang, 1941) e Springtime in the Rockies (Minha secretária brasileira, direção de Irving Cummings, 1942), além de outros e integrando também várias orquestras americanas.
Em 1943 fez shows em teatros e night clubs, sendo convidado no mesmo ano por Walt Disney, que o pediu emprestado à Twentieth Century Fox por cinco dias, para musicar o desenho de longa metragem 'Saludos, amigos', onde o papagaio Zé Carioca, personagem principal do filme, aparece como símbolo do Brasil.
Em 1944 participou de shows com Carmem Miranda e o Bando da Lua, apresentados nas bases da Marinha, em San Francisco, EUA.
No ano seguinte atuou no restaurante Latin Quarter; deixou de atuar ao lado de Carmem Miranda e do Bando da Lua, passando a integrar orquestras norte-americanas. Nessa época, teve aulas de harmonia, contraponto, orquestração e regência com o compositor Mario Castelnuovo Tedesco (1895-1968).
Em 1948, recebeu convite de Carmem Miranda para acompanhá-la em uma excursão a Londres. De volta aos Estados Unidos, passou a viver em Nova York.
Em 1949, ingressou, como regente, na Companhia de Bailado Katherine Dunham, com quem excursionou pela Europa.
Em 1950, apresentou-se na Broadway como diretor da orquestra dessa companhia. Excursionaram pela América do Sul, percorrendo diversos países e no Brasil passaram por Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.
Ainda em 1950, dois de seus sambas com Noel Rosa foram relançados com grande sucesso por Aracy de Almeida, "Conversa de botequim" e "Feitiço da Vila".
Em 1951 recebe proposta de uma orquestra cubana para se apresentar em New York, e deixa a turnê da companhia da bailarina Katherine Dunham, que estava se apresentando em Kingston, Jamaica.
Em 1954, veio ao Brasil de férias, mas acabou ficando definitivamente. Enfrentou problemas com os direitos autorais de suas músicas, pois seu nome não constava como autor. Passou a atuar como pianista em gravações e a trabalhar como orquestrador para a gravadora Continental e para a Rádio Mayrink Veiga.
Em 1955, Helena de Lima gravou com sucesso o samba-prelúdio "Prece" (considerado pela crítica como uma de suas músicas mais inspiradas, e que seria regravada dois anos depois pelo Trio Nagô) e "Coração, atenção", parcerias com Marino Pinto, que acompanhou com sua orquestra. Ainda em 1955, acompanhou, na Continental, com seu conjunto, o cantor Jamelão (na gravação dos sambas "Corinthians, campeão do centenário" e "Oração de um rubro-negro", ambos de Billy Blanco), a cantora Dalva de Andrade (na valsa "Linda Espanha", de Altamiro Carrilho e Armando Nunes e no samba-canção "Aquele quarto", de Osvaldo Nunes e Aníbal Campos), Aracy de Almeida (na gravação do samba-toada "Cafuné", de Dênis Brean e Gilberto Milfont e no samba "Conselho inútil", de Miguel Gustavo), Gilberto Milfont (na marcha "Dois mil e quatrocentos", de Paquito e Romeu Gentil e no samba "Batendo cabeça", de Haroldo Lobo). Também no mesmo ano gravou (com seu regional) na Continental, com Noel Rosa o samba 'Conversa de botequim' e o choro 'Duvidoso', de sua autoria. Com Zezinho, gravou o samba "Tarzan, o filho do alfaiate" (parceria com Noel Rosa) e o choro "Não sobra um pedaço" (de Bororó e Aregivo). Neste mesmo ano, morre a amiga Carmem Miranda.
Em 1956, começou atuando com "Os Copacabana" na Boite Casablanca e depois lançou pela Continental o LP "Dançando com Vadico".
Nesse mesmo ano, com a peça "Orfeu da Conceição" pronta, Vinicius de Moraes procurou Vadico para musicá-la e, se possível, orquestrá-la, mas o convite, por problemas pessoais, foi recusado. O poetinha pediu a ajuda de Lúcio Rangel, que sugeriu o nome de Antonio Carlos Jobim, na época um jovem compositor e arranjador pouco conhecido.
Vadico e Vinicius de Moraes foram parceiros na música "Sempre a Esperar", na interpretação de Raul de Barros (gravada também no LP "Elizeth canta Vinicius", da Copacabana, em 1963).
No ano seguinte (1957), ingressou na TV Rio como diretor musical e seguiu também atuando como pianista em clubes noturnos. Durante o tempo que esteve fora do país compôs pouco, ao chegar ao Brasil, musicou versos de David Nasser.
Em 1958 voltou a trabalhar com Os Copacabana, apresentando-se nas casas noturnas Dancing Brasil e Avenida.
Em 1959, Carminha Mascarenhas gravou, na Polydor, o samba-canção "Dormir...sonhar", parceria com Herberto Sales, futuro integrante da Academia Brasileira de Letras. Deixou Os Copacabana e foi contratado pela casa noturna Sasha's.
Em 1960, Elizeth Cardoso gravou, na Copacabana, o samba-canção "Até quando?", pareceria com Marino Pinto.
Em 1962, gravou pelo selo Festa o LP "Festa dentro da noite". No início dos anos 1980, a gravadora Eldorado lançou um LP póstumo com algumas de suas canções inéditas interpretadas por diversos instrumentistas.
Notas Importantes:
Por conta da morte prematura do parceiro Noel, Vadico, em 1939 aceita o convite de ir para os Estados Unidos como pianista da orquestra Romeu e Silva. Lá encontra com Carmem Miranda e o Bando da Lua e passa a ser um dos integrantes das turnês da artista. Sete anos depois casa-se com Harrieta Melane, em New York.
A convite de Walt Disney, musicou em 1943 o desenho animado "Saludos, Amigos", que apresentava o papagaio Zé Carioca como símbolo do Brasil.
Em 1949, rodou a Europa e as Américas dirigindo a orquestra da Companhia de Bailados de Katherine Dunham.
Voltou ao Brasil em 1956, e trabalhou como diretor musical da recém inaugurada TV Rio (1955 a 1977)
No dia 11 de junho de 1962, enquanto preparava-se para um ensaio com uma orquestra no estúdio da Columbia, sofreu um ataque cardíaco e morreu.
Principais obras:
Arranjei outra (c/ Dan Malio Carneiro)
Até quando
(c/ Marino Pinto)
Cem mil-réis
(c/ Noel Rosa)
Conversa de botequim
(c/ Noel Rosa)
Coração atenção
Choro em Fá Maior
Chopp
Dormir...sonhar
(c/ Herberto Sales)
Dry Copacabana
Duvidoso
Feitiço da Vila
(c/ Noel Rosa)
Feitio de oração
(c/ Noel Rosa)
Guanabara
Mais um samba popular (c/ Noel Rosa)
Pra que mentir
(c/ Noel Rosa)
Natália
Onde estás, melodia?
Prece (c/ Marino Pinto)
Prenúncio
Provei (c/ Noel Rosa)
Quantos beijos (c/ Noel Rosa)
Seja o que Deus quiser
(c/ Mário Morais)
Silêncio
Só pode ser você
(c/ Noel Rosa)
Súplica (c/ Marino Pinto)
Tarzã, o filho do alfaiate (c/ Noel Rosa)
Vai, Astor
Discografia
(1955) Conversa de botequim/Duvidoso
Continental - 78
(1955) Tarzan o filho do alfaiate/Não sobra um pedaço - Continental - 78
(1956) Dançando Com Vadico - Continental - LP
(1962) Festa Dentro da Noite - Festa - LP
(1979) "Evocação III - Eldorado - LP
Tributo a sua obra que contou com a participação de grandes músicos, como Márcio Montar-royos, Dominguinhos, Raul de Barros, Amilton Godoy, Roberto Sion, Edu da Gaita e Heraldo do Monte

