Erasmo Carlos - 50 anos de carreira


Erasmo lança safra de inéditas - rock do bom

Erasmo Carlos é o ícone maior de uma geração que viu brotar o estilo Rock n’ Roll nacional. O Tremendão, completa 68 anos, 50 de carreira e finalmente lança disco com faixas inéditas, novos parceiros, confirmando as palavras da Sra. Lee Jones que afirma ser Erasmo o Pai do Rock!

O CD "Rock 'n' Roll" vem com rock básico com inspirações sessentistas/setentistas, humor e romantismo, características básicas de sua obra. "Eu me cobrava isso junto aos meus fãs que me davam até bronca. Queriam mais guitarras do que teclados. Estava devendo isso ao meu público", entrega Erasmo.
Para concretizar o disco, Erasmo chamou o produtor Liminha, que não precisa de apresentações. O ex-Mutante além de produzir, toca guitarra, baixo, ukelele. Dadi (Novos Baianos, A Cor do Som, Marisa Monte, Jorge Benjor e tantos outros) toca guitarra e baixo, Cesinha está na bateria e Alex Veley nos teclados. Pedro Dias e Luiz Lopez, da banda Filhos de Judith, fazem os vocais. Essa é a banda básica, mas tem outros convidados como seu filho - o baterista Gil Eduardo, o paralâmico João Barone e o guitarrista Billy Brandão.
"Rock 'n' Roll" tem cinco músicas do próprio Erasmo - "Jogo Sujo", "Cover", "Olhar de Mangá", "Vozes da Solidão" e "Encontro às Escuras". Duas com cada parceiro: Nando Reis, Chico Amaral e Nelson Motta; e uma com Liminha.
Em entrevista, na sua residência, no Rio de Janeiro, Barra da Tijuca, o Tremendão fala sobre o disco e outras coisas.

Como foram aparecendo essas parcerias?
Quando vi, já tinha 25 músicas. Uma leva boa e inspirada, idéias acumuladas em dois anos. Foi então que revolvi gravar tudo em casa mesmo, fazer uma pré-produção. Comecei a preparar e escolher os temas e separar as melhores. Com as melhores idéias resolvi pedir ajuda aos amigos. De repente vem uma idéia melhor ainda de Nelson Motta. Pego a melhor idéia do outro, junto tudo e faço um bom disco. O Nelson Motta é um cara que convivo há muito tempo e admiro. Já gravei música dele com Lulu Santos, mas nunca fizemos nada juntos. Quando liguei, ele estava em Portugal, disse para eu mandar as melodias. Ele fez a primeira lá e depois fez a segunda aqui: "Chuva Ácida" e "Noturno Carioca".
O Nando Reis é um cara que eu gosto muito e tem um violão de marcação que eu adoro! Pra mim é a melhor marcação de violão do Brasil! Nós gravamos "De Noite na Cama", no disco do Zeca Pagodinho - "Casa de Samba". Nesse dia comentamos que tínhamos que fazer algo juntos. Lembrei e liguei para ele, que estava agulhado na gravação do disco novo e mesmo assim, conseguiu um tempo para fazer duas músicas comigo: "Um Beijo é um Tiro" e "Mar Vermelho".
Sou fã do Chico Amaral, letrista do Samuel, do Skank, que já tinha me homenageado com a música "Erasmo Carlos de Roterdan". Através do Fernando Furtado, empresário do Skank, cheguei até ele. Compôs duas letras lindas e maravilhosas: "Noite Perfeita" e "A Guitarra é uma Mulher".
O Liminha, geralmente, não faz letra, mas fez! Eu disse para fazer a letra e ele disse que não fazia, eu disse que ele ia fazer e ele fez! (risos) Eu amo essas coisas, essas experiências de juntar as pessoas! Acho que é daí que saem coisas boas. Então, ele é casado com a Patrícia Travassos, foram à praia, viram uma gostosa, ou várias gostosas e desenvolveram a letra de "Celebridade". Todos fizeram as letras, as melodias são minhas.
E as músicas que sobraram?
Desta leva de músicas dei uma para o Sérgio Dias, dos Mutantes. Ele ligou da França pedindo uma música e a Bia, que agora é a vocalista dos Mutantes, fez a letra. As outras ficaram para trás como tantas.

Como foi o reencontro com Liminha?
Conheço desde os tempos dos Mutantes e Jovem Guarda. Ele gravou "Carlos, Erasmo" e "Pelas esquinas de Ipanema". Tivemos uma banda juntos: Cia. Paulista de Rock', nos anos 70. Montamos essa banda para o Hollywood Rock que virou um filme underground. Sempre estamos juntos por tabela. Convidei por sugestão do Marcos Kilzer. Era a hora certa! Sempre teve esse namoro como produtor e artista, mas nunca havia tido a oportunidade de se concretizar.

A banda que toca no disco é de craques...
Foi o Liminha quem organizou a maratona! Este disco foi feito de baixo para cima. Ele veio aqui em casa perguntou sobre as músicas e mostrei tudo que tinha feito com minha bateria eletrônica e violão, tudo com início meio e fim. Ele teve sensibilidade, foi a primeira vez que aconteceu comigo, de pegar o meu material, levar para o estúdio e falar: "Agora nós vamos fazer a mesma coisa que você fez na sua casa". Ligamos a bateria eletrônica e continuei a fazer a mesma coisa, ele pegou o baixo, chamou o Dadi e ficamos brincando. Desta brincadeira nasceu à base. Ele começou a cobrir com guitarras, colocou o baixo verdadeiro, o Cesinha substituiu a bateria eletrônica. Sentimos necessidade de colocar uns vocais. Ele me apresentou Os Filhos da Judith. Foi uma surpresa maravilhosa! Engraçado que digo que são três meninos maravilhosos, mas estou me referindo aos vocais! E nos vocais são dois - Filhos da Judith e fica tudo certo. Foi grande surpresa! Cheguei a vê-los no Youtube e aprovei! Só tem teclado em uma ou outra coisa espalhada que o Liminha fez. É basicamente um disco de guitarra.

O João Barone e Gil Eduardo também estão no disco...
É! Chegou na hora do ska "Celebridade" que é a música que fiz com Liminha. Ele sugeriu chamar o Barone pois achava que tinha a cara dele. Foi ótimo! Chamei também meu filho, Gil Eduardo, para fazer uma faixa "Noite Perfeita". Ele gravou o disco inteiro do Big Gilson e está fazendo os shows. Foram esses; Cesinha, João Barone e Gil Eduardo, os três bateristas do disco.

É o primeiro disco de rock depois do "Buraco Negro", ou você compara com o "Carlos, Erasmo"?
Não sei. O "Carlos, Erasmo" virou antológico depois de 30 anos. Então, só daqui a 30 anos que vamos saber (risos). O que este jornalista, talvez, queira dizer é que este disco é todo voltado para o rock 'n' roll (ritmo que eu nunca deixei de gravar). Como sou um compositor brasileiro tenho muitas influências. Tenho 68 anos e vi brotar muitos gêneros musicais e senti a magia de presenciar o 'nascendo'. É diferente de hoje! A geração de agora quer informação sobre 'twist', vai ouvir e analisar friamente com a cabeça de agora e pode dizer: É isso que é twist? Esperava que fosse... Eu não! Vivi a magia de ver nascer o ritmo, dança, a coisa no mundo inteiro! O Twist, por exemplo, diziam que fazia mal para a coluna, proibiram a dança. Como o 'rock', que fazia mal porque era coisa do Diabo! O mambo, tcha tcha tcha, calípso, bossa nova... Sofri essas influências todas, sou diferente de um roqueiro inglês ou um roqueiro americano que só têm aquela batida que vem do skiffle, fox trote, blues, mas no fundo é tudo a mesma batida com instrumento diferente e mais lento. Aqui é uma mistureba danada! É normal eu fazer um disco que tem rock, mas que tenha samba e daqui a pouco têm isso, tem aquilo... Este disco é voltado para o rock igual ao "Carlos, Erasmo", "Projeto Salva Terra" e "Buraco Negro".

Você acha que a MPB é algo elitista?
Eu vejo a MPB rica. No meu início ninguém tinha escolaridade e ninguém tinha instrumento. Para gravar com baixo elétrico foi um problema! As guitarras eram todas amarradas com arames! Não se fazia shows em praças públicas porque não havia aparelhagem adequada para que todos ouvissem! Eram shows em lugares pequenos como; circos, clubes, boates, cinemas. Hoje em dia vem todo mundo empunhado de 'Fender' para cima! A maioria fala inglês e tem a mania, muito grande, de gravar em inglês! Eu não vejo nenhum inglês gravando em português! Mas todo mundo quer gravar em inglês! Acho excesso de babação de ovo com o estrangeiro aqui no Brasil! Então, eles vêm com tudo em cima! É natural que isso reflita na música. Sendo que pode ser um pouco elitista no estilo deles, evitando coisas comuns! Evitam por exemplo; os pontos comuns que eu falo. Não sou poeta, sou um contista que usa algumas imagens poéticas para melhorar meu conto. Quem assume realmente a poesia, que é o que o que existe na MPB de hoje em dia, já fica com outra responsabilidade que para mim quer dizer poeta! Poesia é uma coisa que pouca gente conhece! A escolaridade no Brasil ainda é limitada! Por exemplo; eu acredito que se você chegar para uma mulher do povo e falar: Ontem as estrelas me disseram da sua incompetência total perante a vida maravilhosa que Deus deu para você! Porque o azul celeste de seus cabelos, pífios, sejam eternos enquanto durar o amor que não tenho por você! Quero dizer o seguinte; se você falar mal da mulher com palavras bonitas, ela vai chorar e vai te agradecer! Muito obrigado você é lindo, é maravilhoso... Isso é problema de escolaridade com a poesia! Eu uso isso também! Estou falando, mas não estou fora do saco! As Estrelas, o Mar, o Arco-Íris, o Sol, as Nuvens, maquiam qualquer tipo de poesia, por isso todo mundo vai nessa. Eu já prefiro contar uma coisa mais entendível.

Esse disco não tem nenhuma parceria com Roberto Carlos...
Não é segredo nenhum que com a morte da Maria Rita ele abriu a parceria dizendo - Não quero mais... palavras íntimas sou eu que digo, não quero abrir com ninguém. Isso já é mais do que sabido! Então, ele não grava mais, todo ano não grava, não tem disco novo, esse ano vai sair parcerias da Globo, o disco de Miami... Ele não tem gravado e nós não temos quase trabalhado. Tem três músicas inéditas, que foram feitas há quatro anos, que deverá sair em seu disco novo.

E o "Cover" do eu mesmo?
Sou fascinado por covers! Cover me desperta uma curiosidade muito grande! Quando falo cover, digo o cara que tem isso como profissão! O cara rouba a identidade do original. Tem certos covers que a partir do momento que ele levanta da cama, já é outra pessoa. Veste-se igual, fala igual, faz trejeitos. Sou um estudioso para fazer minhas músicas e estudo personalidades e isso me fascina! Nas minhas viagens pelo mundo fiquei impressionado com a quantidade de covers de Elvis Presley que vi em Los Angeles! Vi, através dos tempos, Elvis negro, mulher, japonês, criança, bebê e vi Elvis anão! É a força do mito! Aqui no Brasil o que têm de covers de Roberto Carlos e Raul Seixas é impressionante! Eu tenho foto com esses covers! Michael Jackson que tem uma personalidade estranha e Beatles tem para caramba! Tem do Carlitos, Marilyn Monroe... Tem covers da vários tipos!! Mas reparei que não tem nenhum cover do Erasmo Carlos! (risos). Pensei: que artista que eu sou? Não tenho nenhum cover? Mas isso não vai ficar assim! (risos) Vou ser cover de mim mesmo, sou geminiano, sou dois. Fiz a música de um cara imaginando ser cover dele mesmo. Claro que é uma grande brincadeira! (risos)

A banda que fará os shows de lançamentos será a mesma do disco?
Não tem como. Estou montando minha banda para cair na estrada em agosto. Na próxima semana começarei a montar o grupo que vai tocar.

Rock 'n' Roll poderá gerar um DVD?
Pode. Será uma conseqüência do trabalho, já que vou cair na estrada. Já que agora é assim! Mas não tem nada programado.

Rita Lee falou que você é o 'Pai do Rock Brasileiro'.
Não! Esse negócio pode dar problema! (risos) Sou apenas um compositor que faço minhas músicas, canto e me jogo nos braços da estrada. Não tenho essa pretensão e não sou chegado a este tipo de glamour. Não se esqueça que a Rita é brincalhona igual a mim! No disco dela eu a chamo de rainha, de mito, de tudo! Ela é uma maravilha de mulher! Nós trocamos, este ano, apresentações de discos. Eu apresentei o "Multishow ao Vivo" que ela fez e ela apresentou este meu novo disco. Então, é uma troca de elogios rasgados, ou melhor, customizados, para ficar mais moderno! (risos)

"Erasmo convida II" - 2007, tem como fazer uma comparação com o primeiro "Erasmo convida" - 1980?
O primeiro tinha um pouco de ineditismo por contar com tantos convidados famosos e foi fácil, a maioria era da mesma gravadora. Tínhamos estúdio à disposição a qualquer hora do dia ou da noite! Não tinha problema de tempo e nem de esperar! O Gilberto Gil demorou seis meses! Ele morava na Bahia e tive que esperá-lo vir ao Rio para gravar! Foi mais fácil nessa área! O segundo foi mais complicado por causa de horário, tempo, grana! Pagamentos dos músicos... Foi meio apertado, mesmo assim esperamos o Chico Buarque que estava em plena temporada Européia e achamos uma brecha. Marisa Monte também estava em turnê e conseguiu um tempinho. Este disco foi mais complicado nesses termos, mas foi satisfatório. Eu impus certas regras de não se repetir música para não haver comparações e depois não saírem por aí dizendo que "A versão do fulano é melhor do que a do beltrano!". Repetir artistas também não! Outro time e outras músicas. Muita gente poderia ter participado do primeiro - como Chico Buarque, Milton Nascimento, mas, por questões, na época, não foi possível. Fiquei satisfeito com o resultado de ambos. O primeiro vendeu mais e foi mais comentado. A realidade atual é diferente da época que foi lançado o primeiro.

68 anos, super atual, fazendo disco de rock com músicas inéditas...
Cada pessoa é um universo diferente, cada pessoa procura seu espaço na medida em que pode ou na medida em que lhe é oferecida. Respeito muito essas coisas. A vida de cada um é a glória de cada um. Todos têm sua estrada. Mas eu tenho, por mim mesmo, tentar e gostar de novidades. Gosto do que faço e não gosto muito de ir junto com a maré. Aquele negócio de "oba oba"! "Vamos por aqui que está dando certo”. O novo me fascina! Procuro ser atual, até porque, na minha profissão tenho que estar atualizado e como ser humano tenho que evoluir e disputar de igual para igual, mas não faço questão de chegar na frente de ninguém. E tem, também, a responsabilidade da minha família: os meus filhos, os netos e tenho que conversar qualquer assunto que eles estejam falando, para não ficar marginalizado. Um dos grandes problemas da marginalização é você parar de fazer certas coisas e ir se isolando. O mundo continua e é muito cruel! Passa por cima de você igual a um trator e você fica estirado, igual ao desenho animado, feito papel gritando por socorro e ninguém vai te ouvir! O jeito é você andar para frente e olhar para trás porque o trator está vindo! Isso é o que eu acho.

Você se considera um jovem amadurecido?
Isso é muito engraçado de analisar porque por dentro sou sempre jovem. Tenho a idade que eu quiser. Tenho quatro netos, que vai de quatro até 15 anos. Tenho que ter assuntos para todos. A hierarquia daqui de casa se faz pela experiência e não pela força. É muita conversa. Tem os filhos que tem 30... 40 anos... Tenho essa riqueza de diversificação de faixas de idades para conviver e aprender. Sou linkado com o mundo em todos os assuntos. Desde histórias em quadrinhos, filmes, games ...

E a gravadora Coqueiro Verde?
Está indo legal. Não é minha praia. Eu deixo isso por conta do Leo (filho do Erasmo). A Coqueiro Verde é para lançar os meus discos, a minha concepção. A logística, o funcionamento, tudo, quem faz é ele junto com Marco Kilzer que é meu sócio. Sou um contratado da Coqueiro Verde. É uma coisa que sempre sonhei em ter, o meu próprio selo e lançar minhas músicas. Era meu desejo desde 1980 e nunca conseguia realizar. Hoje fico feliz em estar no mesmo time de Marisa Monte, Milton Nascimento, Roberto Carlos dentre outros que têm selo próprio.